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terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

ninguém usa paletó marrom

Eu nunca havia reparado nele. Um tempo depois fiquei sabendo que ele trabalhava na repartição há doze anos. Coisa maluca, sumir assim, sem fazer falta. Carregando uma pilha de arquivos no peito, escondia o rosto. Usava paletó marrom e jeans azul desbotado todo dia. A mesa, uma barreira de guerra. Hoje acho que era de propósito - acostumado a não ser notado por ninguém, só olhava pra baixo. Digo isso, pois todo mundo lembra do carequinha de quarenta anos, mas da aparência, ninguém se recorda.
Um dia faltou e ninguém sentiu falta. Nem chefe, RH ou porteiro. Imagino ele em casa, ao lado do telefone, sentado no sofá e esperando alguém telefonar pra dizer: "Não vem trabalhar, Cardoso?". Percebeu que era invisível. Trabalhou mais dois dias e faltou outros três. O telefone de casa continuou mudo. Cara, deve ser difícil perceber que a gente não faz falta! A Ivone do RH me disse que passou pela mesa dele e vendo a pilha de papel, achou que estivesse lá e deixou o contra-cheque.
Agora me lembro, uma vez ele me perguntou as horas. Apressado, não respondi, mesmo usando no pulso o relógio novo que ganhei do pessoal da repartição no meu aniversário - presente que ele deve ter ajudado a pagar. É triste! Era o décimo segundo ano dele no banco, e o paletó marrom, jeans desbotado e a carequinha, nunca fizeram diferença pra ninguém.
Depois de nove dias ausente, alguém foi brigar com o cara que ficava na mesa do canto. As pilhas de arquivos já estavam altas demais. Na cadeira vazia, o bilhete rabiscado:

"Não sei quanto tempo já passou. Ass: João Cardoso."

O bilhete foi parar com a Ivone. O gerente não lembrou quem era o tal Cardoso. Pela primeira vez o telefone dele tocou, mas ninguém atendeu. Decidiram procurá-lo no apartamento. O porteiro mal se lembrava quem era o cara do 402: "Ah, é um carequinha?".
A porta do 402 não estava trancada. No corredor, o crachá do banco caído no chão. O mau cheiro invadiu minhas narinas. O porteiro ficou na porta. Um sol estranho entrava pela janela da sala. A TV fora do ar. Vi uma poltrona e a orla de um roupão riscado. O desgraçado morreu de olho aberto e me encarava. Encostado na janela, chorei. Sem o paletó marrom, não soube dizer se aquele defunto era mesmo o Cardoso.

5 comentários:

Col�gio Estadual Silvio Magalh�es Barros disse...

Aí filhão gostei muito...tambem quero ver o vídeo.....

Mélker Rúbio disse...

gente...
que triste...
faz refletir...
mas belo texto...
como todos os outros...
abraços amigo...

MetAArte disse...

Olá Michel! estou divulgando seu conto na Revista Outras Palavras, abraço!

Rejane Heloise disse...

Que deprimente... faz mesmo a gente refletir...

Muito bom o conto. Muito bons todos eles.

Beijos

Rejane

Rejane Heloise disse...

isso aki tá jogado pras traças mesmo...onde estão as novidades? Axo que alguém anda trabalhando muito e não tá dando tempo de escrever né? bjoooo