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sexta-feira, 13 de junho de 2008

resmungos numa noite de quarta

Perdia-se na estampa quadriculada da camisa dele. Ao longe ouvia: ‘analisem a oração: é fácil alguém acreditar que é perigoso a Nilce dormir debaixo da jaqueira.’ Não sabia quem era Nilce, ou onde ficava a jaqueira. A camisa quadriculada, tinha cor de sujo, de encardido, realçando a gola esgarçada.
A eternidade deveria ser mais veloz que aquela aula. Tinha pena de sair da sala, e deixa-lo explicando a matéria para ninguém, ou para os quadriculados da camisa. Nesses dias pensava em largar a faculdade, largar a vida. Achava inútil estudar se não via graça no que estudava. Pensava o que faria da vida se largasse a faculdade, o que a vida faria com ele.
Na sala de aula, pessoas feias ostentavam falsas máscaras, com escritos hipócritas: ‘mais inteligente’, ‘mais dedicado’, ‘autodidata’, ‘história difícil, infância pobre’, ‘galinha da turma’, bicha enrustida’. Quando conversava com eles não via mais os rostos, somente as máscaras com escritos em letras garrafais. Pensava qual a máscara as pessoas viam nele. Será que já tinham percebido que tentava disfarçar sua máscara, usando uma face por cima dela?
Cansou do dilema. Esbravejou. Criticou. Sumiu. Nunca mais foi visto. Até que um dia o encontraram sozinho, resmungando como um velho, debaixo de uma jaqueira.

3 comentários:

tita coelho disse...

Menino tu está escrevendo demais! Adorei isso!!! Tá muito bem escrito o texto!
beijos

Michel Queiroz disse...

grato Tita

ZEPOVO disse...

conheço bem o cara da camisa quadriculada, na verdade conheço vários...
Beleza, vc tem o dom...